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sábado, 19 de junho de 2010

Macau e a 2ª Guerra Mundial


Passou no dia 6 de Junho mais um aniversário do Dia D, que marcou o início da viragem na 2ª Guerra Mundial, com o desembarque dos Aliados na Normandia.
Embora Portugal não participasse no conflito, graças à ambígua política de Salazar de “neutralidade colaborante”, o facto é que o País não deixou de sofrer as suas consequências.
Macau, era então uma espécie de “oásis de paz”, com Hong Kong ocupada pelos Japoneses. Tornara-se o último reduto neutro para os refugiados. A população, normalmente de 500 mil pessoas, passou a amontoar nos seus 20 quilómetros quadrados, mais de um milhão de habitantes. O ambiente fervilhava de todo o tipo de movimentações e actividades. O mercado negro prosperava, a espionagem de todas as partes tinha o seu campo livre para actuar. Não era difícil descortinar nos terraços das casas antenas de transmissão, embora estivessem proibidas. A minha Mãe contava que na casa ao lado, que tinham um hóspede japonês, rara era a noite que não ouviam o “bip-bip” das emissões em morse.
Tirando os sobrevoos dos aviões do Eixo, não havia sinais de hostilidades, excepto já quase no fim da guerra, os americanos resolveram bombardear um hangar à beira-mar, cuja função era guardar combustível para hidroaviões e armazenava alimentos. Foi um gesto gratuito e inconsequente no esforço da guerra, mas que provocaram estragos e feridos, que o nosso governo condenou de forma veemente.
À semelhança da maioria dos macaenses, a nossa Família passou muito mal esse período. A administração portuguesa via-se e desejava-se para alimentar toda aquela gente. Chegou-se ao ponto de vender os históricos canhões da Fortaleza da Barra (Ver post “Lendas de Macau I”) para comprar arroz. A distribuição das senhas de racionamento era prática geral.
Contava a minha Mãe que iam para as filas de distribuição, ela e os irmãos mais novos, à meia-noite; às seis da manhã, vinham os chineses aos magotes e empurravam as crianças para fora das filas. Nem sempre conseguiam as senhas ou as rações. Então passavam fome e comiam o que calhava. O meu Tio César que era o mais velho, ofereceu-se como voluntário para a tropa, com a idade mínima, para garantir três refeições por dia. O meu Avô, que se tinha reformado pouco antes do início da guerra, teve de voltar a trabalhar; nas obras, apenas a troco de alimentação, que ele, na maioria das vezes, guardava para levar para casa. Minha Mãe contava que o viu muitas vezes de lágrimas nos olhos. Os objectos de valor, serviços de louça e copos, faqueiros de prata, a pouco e pouco foram para o prestamista, até sobrar o famoso piano de cauda, que por ser muito grande ninguém quis.
Por outro lado, nunca Macau foi tão animada. As pessoas pareciam que queriam viver cada dia freneticamente, como se o dia seguinte não existisse. Todos os dias havia eventos, festas, bailes, formavam-se orquestras e tunas, organizavam-se espectáculos de todos os géneros.
Nessa época a Família Amarante viveu um dos períodos mais negros da sua história.
Fotos retiradas do site "Projecto Memória Macaense"

CORRECÇÕES: O meu Amigo João Botas chamou a atenção (ver comentários) para umas incorrecções existentes no texto e que passo a referir: houve uma inflação no número de habitantes durante a Guerra, com os refugiados chegou-se aos 500 mil e não como escrevi e a superfície de Macau nessa altura era de 15 quilómetros quadrados e não os 20, que aprendi na escola primária, numa altura que já tinha sido conquistado muito terreno ao mar. As minhas desculpas aos leitores e um muito obrigado ao João Botas.

2 comentários:

  1. Só uma correcção: a população de Macau antes da Guerra do Pacífico (1941-45) ronda as 150/200 mil almas... com os refugiados terá atingido as 500 mil pessoas cerca de 1944. Após a guerra voltou à normalidade... um pouco abaixo dos 200 mil. Cá fico à espera de mais histórias da avó Má.

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  2. E já agora.. outra: o território tinha na altura cerca de 15km's quadrados de superfície (e não os 20 que refere)

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