Este Blog não adere ao Novo Acordo Ortográfico

------------------------------------------------------------------

terça-feira, 23 de março de 2010

A Mascote

Quando tocava a sirene, era a primeira a ocupar o seu lugar na viatura do Chefe Amarante.
Penso que nunca cheguei a saber o seu nome. Era uma cadela rafeira, que tinha sido adoptada por toda a corporação. Gostava de todos. De todos era amiga.
Nas cerimónias oficiais, sabia comportar-se com a formalidade exigida, acompanhando os desfiles e estando quieta quando era necessário.
Mas era nos incêndios que ela revelava o seu espírito de bombeiro. Na viatura do Chefe. Acompanhava todas as operações, sem interferir, às vezes ladrando, outras, calada.
Eu já não a conheci. Certa vez, estando numa fase adiantada de gravidez, falhou o salto para a viatura, caiu e foi colhida mortalmente por uma outra viatura que manobrava.
Foi com grande desgosto que, findo o incêndio, os Bombeiros a enterraram num recanto da parada e sobre o qual plantaram um espaço ajardinado em sua memória e mais tarde construíram um lago artificial com peixes exóticos que passou a constituir um ponto obrigatório de passagem a todos os visitantes pela sua tranquilidade e beleza.

sábado, 20 de março de 2010

Avô-Pá e as "notas"...

Numa altura em que, tanto quanto sei, na Metrópole, nem se falava disso, em Macau, no ensino oficial, todos os meses os Encarregados de Educação (pai ou tutor...) eram informados por escrito, da progressão dos seus educandos.
Assim sendo, todos os meses, uma caderneta escolar lá ia parar a casa, levada pelo aluno (algo quase inconcebível nos dias de hoje...); e falamos de miúdos a partir dos 4 anos!
Vem a propósito que, no final de cada ano lectivo, a caderneta fazia uma pequena viagem; era um ritual que se cumpria com muito prazer. Ir mostrar a caderneta escolar ao Avô-Pá. Não sei qual era o critério, mas de regresso, trazíamos uma moedita (dez avos? vinte avos?), que muito nos fazia felizes.
Não sei como ele o fazia. Um homem que só sabia ler letras de imprensa e mal escrevia o seu nome, tinha lá a sua bitola para premiar os seus netos pelas notas que tinham. E apesar do seu ar severo, havia sempre uma festa na cabeça, uma pequena palavra de encorajamento, normalmente a lembrar que ele não tivera a mesma oportunidade de se instruir. Além da moedita vínhamos a roer uma fatia de maçã daquelas grandes, muito vermelhas e polidas, tipo "Branca de Neve"..., que ele muito gostava e guardava sempre uma ou duas na sua escrivaninha... (uma autêntica arca de segredos que ninguém era autorizado a abrir!)
Agora as criancinhas recebem "segas" e "psp" e outros só por terem positiva num teste...
Foto: Avô-Pá com um dos muitos cães que tinha.


           A minha primeira Caderneta Escolar

sexta-feira, 19 de março de 2010

segunda-feira, 15 de março de 2010

UM MINUTO PELO COLEGA LUÍS

Não gosto de minutos de silêncio. Mas há alturas em que o silêncio grita mais alto que o som.
Proponho que dia 19, sexta-feira, ao meio-dia, cada Professor, esteja onde estiver, em aula, em casa, na rua, na sala dos profs, se cale durante um minuto, deixando que o silêncio GRITE alto a nossa Solidariedade com o nosso Colega Luís.
Os alunos, se for o caso disso, que façam o barulho que quiserem. Nós vamos calar-nos.
Eu vou fazer. Quem alinha?
Sexta-feira, dia 19, meio-dia, UM MINUTO PELO COLEGA LUÍS.
Se estiver de acordo reencaminhe esta mensagem da forma que entender.

Vôs qui nómi?

"O telefona toca.
- ­Hello? Sâm quím?
- Bô-tarde, Gege, por favor.
- Vôs sâm quím?
- António...
- António, quim?
- António Rosário...
- Qual António Rosário?
- António Procópio Menezes da Costa Salvaterra dos Passos Martins do Rosário!!
- Cuza??
- Pofa! “Boi-Preto” mé!
- Ahhh...Vôs! ... Pai tá bom?!
- ...!"

Pela segunda vez consecutiva estou a postar sobre o Patuá de Macau. É uma descoberta que estou a fazer. Avó-Má não o falava, apesar de usar muitas palavras desgarradas e que foram ficando no nosso vocabulário quotidiano. Voltarei a este tema.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Poema em Patuá
Língu di gente antigo di Macau
Lô disparecê tamên. Qui saiám!
Nga dia, mas quanto áno,
Quiança lô priguntá co pai-mai
Qui cuza sä afinal
Dóci papiaçam di Macau?








Tradução para o Português
A língua da gente antiga de Macau
Vai desaparecer também. Que pena!
Um dia daqui a alguns anos
A criança perguntará aos pais
O que é afinal
A "língua doce" de Macau?

sexta-feira, 5 de março de 2010

(Parênteses)

Avó-Má vai-me perdoar este parênteses que vou colocar para reagir a uma notícia que nada tem a ver com este blog, a não ser no sentido de que Avó-Má não gostaria de ter um neto, "Neneto", como me chamava, acrítico, acéfalo, amorfo e incapaz de reagir.
Posso estar a empolar, mas existem dias em que a sensibilidade está muito mais reactiva. Hoje é um deles.
Apanhei numa daquelas notícias tipo "Caras" que o nosso PM se vestia numa loja de Los Angeles, considerada só, a mais cara do mundo. Há dias, comprei, por necessidade, uma sweatshirt polar nos saldos do Torres Shopping por 4,9 euros. Fiquei felicíssimo. É quentinha, usei-a a semana toda.
Não aderi à greve da Função Pública, porque, como Professor, a questão do aumento salarial não faz parte das minhas prioridades.
Ao País é pedido contenção, mais trabalho e produção, mais paciência e resignação para suportar a crise e todo o seu rol de sacrifícios. Enquanto uns auferem reformas de luxo por meia dúzia de anos de trabalho, outros ficam-se pela miséria encapotada e envergonhada; enquanto uns ganham mais que o Presidente dos EUA, outros vêm os seus magros salários congelados, outra vez, mais uns anos.
Progredi na carreira, pela última vez, em 2001. Depois de todos os atropelos ao mais elementar dos direitos à dignidade, foi-me imposto que em 1 de Março, finalmente mudaria de índice de vencimento. Mais uma vez a prepotência fez valer a sua força. Mudarei, sim, talvez... no final do ano lectivo, que é como quem diz, em 1 de Setembro, isto se entretanto não houver outra diarreia mental nos que nos mandam e mudem de ideia. Se chegar a receber os retroactivos nos finais de Setembro, terão passado sete meses. Quem me paga os juros?
Desculpe Avó-Má, mas este Portugal onde vivo já não é aquele que me falava. Os cravos brancos que Avô-Pá plantava no jardim e cujas sementes tinham vindo de cá, depois de mudarem para vermelhos já murcharam há muito. As belas rosas que um dia Isabel de Portugal mostrou ao seu real esposo, são importadas. O partido que as adoptou como símbolo conseguiu fazer deste País, um local onde é difícil viver. Onde esperança é sinónimo de miragem. Nesta quase Primavera meteorológica, as andorinhas deram o lugar aos vampiros.