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segunda-feira, 15 de março de 2010

Vôs qui nómi?

"O telefona toca.
- ­Hello? Sâm quím?
- Bô-tarde, Gege, por favor.
- Vôs sâm quím?
- António...
- António, quim?
- António Rosário...
- Qual António Rosário?
- António Procópio Menezes da Costa Salvaterra dos Passos Martins do Rosário!!
- Cuza??
- Pofa! “Boi-Preto” mé!
- Ahhh...Vôs! ... Pai tá bom?!
- ...!"

Pela segunda vez consecutiva estou a postar sobre o Patuá de Macau. É uma descoberta que estou a fazer. Avó-Má não o falava, apesar de usar muitas palavras desgarradas e que foram ficando no nosso vocabulário quotidiano. Voltarei a este tema.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Uma descompostura em Patuá

A pedido da minha filha mais nova

«Vai ná minha bolontrão
Sevandija discarado,
Eu diverá mutu reva,
Olá ung-a Nhum assim malvado!

Vôs non tem nada di bom,
Divera certo falá,
Respiate sem vergonha,
Pra vôs non quêro olá.

Tudo laia tem roindade
Est'ung-a bobo quarenta fora
Si vôs vai na minha casa,
Pinchá de jinela fora.

Non quero vae vosso casa
Tem medo de suzá pê,
Quim qurê tratá cô vôs?
Tché!... Lé cô lé, côcré.
Gente Benfeto»

Macau em 1835

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Uma estória em patuá: Soldado Serafim

Serafim sãn unga soldado di nosso Exército Português qui já vem p’ra Macau assentá praça, na Fortaleza di Monte.
Unga dia, Comandanti chomá ele p’ra su gabinete e falá assi:“Soldado Serafim, iou teng unga missão ui-di importante p’ra vos cumpri! Sã unga carta ui-di confidencial qui iou já iscreve para o Sium Pisidente di Leal Senado. Vos azinha-azinha vai entrega istunga carta cavá volta mostra iou protocolo assinado. Ouvi nunca?!?”“Sim, Sium Comandanti! … Dá licença?” …Serafim baté pala, fazê meia-volta volver, e marcha sai di gabinete di comandante.
Cá fora, Serafim tremê de mêdo... “Qui ramêde… iou nun sabi ondi ficá Leal Senado… iou novo-novo chega como logo sabi?. Se fazâ asneira, certamente há-di fica ferrado!”Cuza logo faze, tropa falá sã teng qui desenrasca.Serafim pirgunta A – “Iou nom sabi”… pirgunta B “Ahnnn parece qui…” “Ayaaa – pensa Serafim... ”vosotro todo vai chera corda-nã… Iou vai tesa peito e onçong logo vai encontra…
Macau nunca sã grandi nunca sã”?E pega su bicicleta, descê Baixo Monte e quando chega Cinema Capitol, olá direita e olá esquerda… mas non sabi qual lado vira… e agora?De repenti, logo na porta di Cinema Capitol ele olá unga china acocorado, con dois cesto na châm.Sarafim aproxima dele e falá com ar de tiro-grande – ele sã tropa, cidadán teng de obedecer:
- Ouvi, vôs sabi ondi fica Leal Senado?
China non sabi português, olá p’ra Serafim e gritá: Lá longi… lá longi!
- Ahn? Qui cuza? Fica longi?E china torna grita: Lá longi… lá longi!
Sarafim torna pirgunta: Lá longi … p’ra ali? E aponta p’ra lado di Igreja de S. Domingos…E china contiua grita: Lá longi… lá longi!
E Serafim vai anda p’ra lado de S. Domingos… mas, quando chega na meio, ouvi china torna gritá:“Fica qui… fica qui!”Sarafim volta p’ra trás novamente, ui-di reva, pirgunta china:“Oh pá, vos tá brinca com iou? Iou non teng tempo p’ra bricadera, ouvi nunca?”
E china torna grita: Lá longi… Lá longi …. e cavá “Fica qui! Fica qui!”…
“Ai, vôs mufino! querê brinca co tropa?” E Pronto! Serafim perde cabeça e dá unga grandi chapada na china…China pelêng-polông cai na chám e começa berra “Aiooohhhhhh... Kau meng-háaaaaaa… ngau sok dále genti…. quim vem acudi iou“...
Na confusán chega puliça-pau e levá tudo dois p’ra esquadra.Na esquadra, Sium Comissário Piteira pirgunta Serafim:
“Qui cuza vos dále china?”“Iou dále china porque china goza iou” e conta tudo tin-tin por tin-tin p’ra comissário.
Na fim, Comissário Piteira, bota mang na cabeça e fala:
“Ayaaaa…Vos já confundi cu co calçam já! China nunca sãn goza vos, ele non sabi português… ele falá ele vende LARANJA e FIGO-CÁQUI!

13/07/2007, Texto de Fausto Manhão

Fotos da Fortaleza do Monte na actualidade, transformado em jardim. (da Net)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

"Dolci papiaçan di Macau" (Adé)



O título de hoje, traduzido à letra significa algo como "O doce papaguear de Macau". O autor da frase, José dos Santos Ferreira (1919-1993), também conhecido por Adé, foi talvez o último poeta popular de Macau.
Homem dos sete instrumentos, dedicou-se à recolha e ao estudo das palavras que constituem o "Patuá", o dialecto macaense, que dominou como ninguém.
Poeta, escritor, investigador, músico compositor, jornalista, radialista, homem do desporto, já não o conheci pessoalmente.
A minha Mãe falava muito dele, porque quando era nova tinha sido treinada por ele em Atletismo, onde conseguiu alguns resultados de relevo.
Muito do que escreveu foi compilado em sete volumes: "As Obras Completas de Adé" editadas pela Fundação Macau, em dialecto macaense.
Eu não aprendi o patuá (apenas os macaenses mais antigos o utilizavam), mas de Avó-Má e mesmo da minha Mãe, retive muitas palavras desgarradas.
Neste momento, corre um processo para a UNESCO reconhecer o patuá de Macau como Património Cultural da Humanidade, já que corre o risco de desaparecer para sempre, com a Diáspora Macaense.
Quero deixar-vos com um excerto de um poema de Adé. Apesar de escrito em patuá sem tradução, com uma leitura atenta não será muito difícil entender o sentido geral das palavras.
Esta é a minha terra que convosco partilho:

"...
Masqui ramendá unga tosco bote,
Largado na mar co ónda picánte,

Quim pôde isquecê acunga dote
Qui já dá vôs grandura di gigánte!
Pa quim buscá luz, vôs sandê candia;
Quim passá fome, vêm aqui têm pám;
Pa quim ta fuzi, susto ventania,
Vôs dá teto co paz na coraçám."
(José dos Santos Ferreira, in Obras Completas de Adé)

Na foto, José dos Santos Ferreira